Convidados muito especiais escrevem suas histórias de comida, infância, refeições…
Convidado especial de hoje:
Olindo Estevam
A horta orgânica da minha Nona e a bosta de vaca
Outro dia numa conversa entre amigos sobre alimentos orgânicos lembrei da horta da minha Nona. ( Nona é a mãe do meu pai)
Morávamos no sopé de um morro chamado Taimbé no Sul de Santa Catarina. Éramos em onze em casa. Nossa casa de madeira era rodeada por árvores fruteiras, hortas, chiqueiros, galinheiros, estrebarias, galpões, chocadeiras e outras coisas mais que se necessita em uma morada de roça.
Há menos de cem metros, fazendo parte do mesmo terreiro, morava a minha Nona. Uma senhora filha de italianos calabreses, desbravadores das terras sulinas. Meu Nono faleceu quando eu era muito pequeno. Minha tias migraram para a cidade e minha Nona ficou sozinha na antiga casa de madeira, que até hoje está firme e forte.
Aliás, minha Nona não ficou sozinha na casa, pois meu irmão mais velho morava com ela. A outras companhias, que eu me lembro, vou listar as principais: Duas vaquinhas leiteiras ( a Estrela e a Chita), Um ou dois porquinhos no chiqueiro, Umas setenta galinhas, grandes safras de ovos; uns três galos, dois cachorros vira-latas ( Brasino e Tica), Duas gatas pardas ( caçadeiras de ratos), umas oito galinhas da Angola, as quais chamávamos de Angolistas; um pato e uma pata entre outros.
Tudo no sítio tinha um sentido de existir. Uma cadeia produtiva muito rica. Quase autosuficiente. E os elementos que complementavam todo esse cenário eram as roças mais diversas, os pomares e a HORTA.
A horta de minha Nona era de uma grande beleza, não só pela variedade de hortaliças com pela viçosidade destas plantas. Era lindo de se ver todas aquelas plantas tão lindas.
A horta da minha Nona era a mais orgânica de todas as orgânicas. Ela estava totalmente ligada ao galinheiro e ao potreiro.
A preparação de um novo plantio começava com a capina de um espaço para novas hortaliças e o fermento essencial de uma boa horta. A bosta de vaca.
Minha Nona chamava meu irmão mais velho e este chamava mais uns dois. Pegávamos a carriola (carrinho-de-mão) e saíamos pelo potreiro (terreno gramado onde pastam os bois e as vacas) a procuram aquelas belezas de poias, como chamávamos.
É muito rápido, simples e direto. Tem vaca que faz um quilo de uma vez só. Aquilo quando ta sequinho, é uma maravilha.
Divertidíssimo catar bosta de vaca pelo potreiro. As boas são aquelas bem sequinhas. Bosta e meia se armada a famosa “guerra de bosta de vaca” e depois de algum tempo a carriola estava cheia. Estamos falando de adubo bom. A contribuição da bicharada em prol da horta da Nona.
Despejamos no canto da horta e com o olho da enxada íamos quebrando e desmanchando , desmanchando, até virar uma terra preta. Espalha-se pelos canteiros. Rega-se um pouco para misturar os nutrientes na terra e está pronto para plantar.
De uma maneira ou de outra, todos contribuíam para a horta da minha Nona ser tão especial.
Olindo Estevam é Videomaker e Educador do Instituto Criar de Tv e Cinema. Formado em Geografia pela USP. Filho de lavradores, morou e trabalhou na roça até os 21 anos no Sul de Santa Catarina.